quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Transporte coletivo de Santa Maria perde mais de 15 milhões de passageiros em uma década

 O transporte coletivo urbano de Santa Maria perdeu mais da metade dos passageiros em menos de uma década. Entre 2017 e 2026, o número de usuários caiu 51,45%, passando de 30,7 milhões para cerca de 14,9 milhões de passageiros por ano – uma redução de 15,8 milhões no período. Isso representa que sumiram dos ônibus 4,3 mil passageiros por dia, na comparação com 2017.

 


 

Os dados, fornecidos pela Associação dos Transportadores Urbanos (ATU), mostram que a retração atingiu todas as categorias de embarque, com queda mais acentuada entre o estudante integrado e o pagante comum (tarifa em dinheiro). Em contrapartida, as categorias protegidas por benefícios – como cidadão, passe livre, especial e vale-transporte – registraram as menores perdas. 

Além disso, categorias como operária e operária integrada (aplicada quando o trabalhador precisa pegar um segundo ônibus na sequência para complementar o seu trajeto) tiveram redução de 99,9%. Isso ocorreu porque a legislação extinguiu esses benefícios, restando no sistema apenas usuários com créditos residuais.

A entidade também chama atenção para o perfil atual dos usuários: segundo a ATU, a cada 100 passageiros transportados, cerca de 60 pagam pela passagem, enquanto os outros 40 utilizam algum tipo de gratuidade ou benefício.

A realidade local reflete uma tendência observada em todo o país. Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o Brasil perdeu cerca de 30% dos passageiros do transporte público urbano entre 2013 e 2023. A entidade aponta que essa evasão foi impulsionada pela combinação do avanço do desemprego e da informalidade a partir de 2014, pelo impacto da pandemia de Covid-19 – que acelerou a migração para outros tipos de transporte. Entre os usuários, aspectos como envelhecimento da frota e a baixa qualidade do serviço também são apontados.  


Especialistas e representantes do setor apontam que a queda no número de passageiros no município ganhou força nos últimos anos por fatores locais. Entre eles:

  • Fim do subsídio municipal: O subsídio ao transporte público foi encerrado em 2025 e 2026, transferindo o custeio do sistema integralmente para os usuários;
  • Reajustes tarifários em curto intervalo: Múltiplos aumentos em sequência, sem tempo hábil para a recuperação ou acomodação da demanda;
  • Aumento na tarifa em dinheiro (PG): Salto de R$ 5,00 para R$ 7,25 — um aumento nominal de 45%;
  • Lei 6.970/2024: Extinguiu as categorias "Operária" (OPE) e "Operária Integrado" (OI), restando apenas usuários com saldos residuais.
  • Santa Maria tem a segunda maior tarifa de ônibus entre as dez maiores cidades do Rio Grande do Sul. O valor cobrado em dinheiro na cidade só fica atrás de Caxias do Sul.


"Santa Maria fica cara sem o subsídio"

Para o presidente da ATU, Edemilson Gabardo, a retração do público demonstra a influência direta do preço da passagem na escolha da população pelo transporte coletivo. Ele argumenta que o comportamento dos passageiros, após os reajustes, reforça que o modelo atual tornou-se insustentável:

Santa Maria fica cara sem o subsídio. Depois que a tarifa aumentou, o número de passageiros diminuiu ainda mais. Precisa existir uma política permanente de subsídio que torne viável o uso do transporte. Hoje a situação é ruim para as empresas, que não arrecadam o suficiente, e para o usuário, que paga caro.

Gabardo aponta que o setor também enfrenta a concorrência crescente dos aplicativos de transporte – como o Uber e a 99. Isso dificulta, ele afirma, a recuperação financeira das empresas, compromete investimentos na renovação da frota e na melhoria do serviço.

A expectativa da entidade é de que o transporte coletivo passe a contar com um modelo de financiamento público contínuo – envolvendo União, Estado e Município – para aliviar o peso do valor pago na roleta pelo passageiro.


O que diz a prefeitura

Em entrevista ao programa F5, da rádio CDN (93,5 FM), o procurador-geral do município, Guilherme Cortez, afirmou que a licitação do transporte coletivo é parte da solução para a queda de usuários, mas precisa ser acompanhada de outras medidas para recuperar a atratividade do serviço.

– A licitação, em si, ela vai estabelecer uma renovação de frota, ela vai estabelecer um contrato formal com um novo operador, mas ela precisa ir além. O Poder Público precisa pensar nesses investimentos, pensar no subsídio, pensar em melhorias das próprias condições dos abrigos – afirmou.

O processo de licitação, iniciado pela prefeitura no ano passado, está em análise no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS). A administração avalia a possibilidade de solicitar uma nova prorrogação do prazo para concluir os ajustes e, posteriormente, republicar o edital.

Além da licitação, o município estuda a remodelação de quatro terminais considerados de maior movimentação: os das avenidas Rio Branco e Professor Braga e das ruas do Acampamento e Pinheiro Machado. A ideia é modernizar os espaços e melhorar a experiência dos usuários. Ainda não há prazo definido para as obras.

Cortez também afirmou que a prefeitura estuda a retomada de uma política de subsídio ao transporte coletivo. Segundo ele, a medida é considerada necessária para reduzir o peso da tarifa sobre o usuário, mas depende da capacidade financeira do município. Outra possibilidade em avaliação é a regulamentação dos aplicativos de transporte, além da criação de faixas preferenciais para ônibus em determinadas vias, como a Avenida Presidente Vargas.


Mudança nas ruas

A estatística reflete uma transformação visível no cotidiano da cidade. A opção pelo ônibus deixou de ser automática para o santa-mariense, especialmente para quem faz deslocamentos curtos ou conta com rotas alternativas.

É o caso de Leon Gonçalves, de 21 anos, estudante de Direito na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Há cerca de cinco anos, ele trocou o transporte coletivo pela bicicleta para ir de casa ao campus, no Bairro Camobi:

A bicicleta facilita o deslocamento, economizando tempo e dinheiro. Com a pandemia, as linhas que atendiam a região diminuíram bastante, tornando inviável usar o ônibus. Além disso, os aumentos sucessivos da tarifa pesam diretamente na escolha.

A experiência é parecida com a do jornalista João Ricardo Gazzaneo Schmitt, 37 anos, servidor da UFSM, que usa a bicicleta como transporte principal há nove anos. Morador de Camobi, ele destaca que a opção une economia e qualidade de vida:

O ônibus está muito caro em Santa Maria. Do meu bairro até a universidade, o valor da passagem é quase o mesmo de um transporte por aplicativo. Além disso, muitos veículos (ônibus) são antigos, desconfortáveis e sem ar-condicionado. A bicicleta acabou sendo uma alternativa melhor porque economizo, faço atividade física e chego rápido ao trabalho.


Especialista aponta "espiral descendente"

Para o professor titular da UFSM e doutor em Mobilidade Urbana, José Antônio Kümmel Félix, a evasão de passageiros deixou de ser um problema pontual, mas sim estrutural:

– Aumenta-se a tarifa para compensar custos, parte dos passageiros abandona o sistema, a arrecadação diminui, o custo por passageiro aumenta e novos reajustes tornam-se necessários. Esse processo é conhecido como "espiral descendente" do transporte coletivo e mostra que o problema deixou de ser conjuntural para se tornar estrutural.

O especialista ressalta que o detalhamento por categoria ajuda a entender essa dinâmica. A queda de 82% entre os pagantes em dinheiro evidencia a alta sensibilidade da população ao preço do bilhete. Da mesma forma, o encolhimento nas faixas de estudantes e trabalhadores revela o peso dos fatores econômicos e das transformações no mercado de trabalho.

Félix defende que a discussão sobre mobilidade urbana no município deve ir além da tarifa e integrar o planejamento da cidade:

– O transporte coletivo não pode depender exclusivamente do valor pago pelo passageiro na catraca. Investir em mobilidade significa investir nas pessoas. Cidades que colocam a população no centro do planejamento tornam-se mais sustentáveis, competitivas, inclusivas e humanas.



Fonte D Diario 




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